segunda-feira, 7 de abril de 2014

Uma declaração de amor que não fez o menor sentido


Estava eu em um desses tributos chulas que acontecem todo o ano. Acho que era o tributo ao Legião Urbana. Tinha chegado de viagem na madrugada anterior, e já tinha extrapolado no Uísque e na cerveja o dia inteiro. O local era a praça da bandeira e por onde andava, eu me sentia obrigado a cumprimentar as pessoas, às vezes parava pra jogar conversa fora e depois continuava caminhando com uma barata tonta até encontrar outros conhecidos. Logo encontrei a Bell. Eu estava tendo um pequeno caso com ela. Nada sério. Ficamos nos curtindo um pouco e depois nos separamos.

Em uma dessas caminhada sem rumo encontrei uma garota que tinha ficado há uns 2 anos antes. E eu já não mantinha tanto contato.
- Oi Billy. –Disse ela com um sorriso.
- Haha... E ae, Rose. Como ta? –Respondi devolvendo o sorriso.
               
                Nos abraçamos e em seguida nos cerramos o abraço, ofereci um pouco da minha bebida a ela:
- Que bebida é essa? –Perguntou-me.
- Ah é theachers. Gosta de Uísque?
- Não sei. Nunca tomei. O que anda fazendo por aqui?
- Nada. Só dando um tempo mesmo.
- Hm... E a namorada?
- Me largou há uns meses.
- Pensei que vocês iriam ficar juntos pra sempre.
- Eu também.

                Ela me abraçou de novo e me apertou bem forte. Fiquei meio assustado com aquilo. Olhei pra um lado, olhei pro outro. Dei um sorriso sem jeito pra ela, tomei um belo trago da dose seguidamente de um trago de cigarro. Sem ao menos retribuir o abraço.
Ela começou a dançar a baladinha que a banda tava tocando e eu só acompanhei. Seus cabelos loiros, seu rosto encostado no meu peito...
De forma impulsiva me sai dos braços dela e fui andando meio constrangido. Encontro uns amigos, vi a Bell sentada na escada e fingi que nem a conhecia.
               
                Caminho mais um pouco e sou abordado por uma garota gordinha, com cara de porquinha da índia. Ela me xinga e começar a me pergunta por amigo meu que é seu ex-namorado até que finalmente a reconheci. Ficou ali minutos me alugando. Falou da sua vida de merda sem ele, falou que a única coisa que a deixava bem era o álcool. Até que desliguei minha atenção para as palavras dela. Ela falava e eu ficava só balançando a cabeça em concordância, e falava “Pode crer”. Ela desiste de mim e volto a conversar com um casal de amigos. Fico lá uns instantes e saio paro um pouco, tomo um gole e acendo um cigarro. Um abraço por trás. Era Rose. Ela me vira e me beija no rosto. Ela já estava com uma aparência de bêbada.
- Hora do D’javú. –Disse ela.
- O quê? –Perguntei assustado e sorrindo da situação.
- Já estar bêbado?
- Sim. Mas sou duro na queda.
- Lembra quando ficamos aqui na praça da bandeira?
- Sim. O Quê que tem?
- Então... Acho que já pode me beijar.

                Olhei para as pessoas ao redor enquanto ela me beijava no pescoço e no rosto enquanto eu escapava dos beijos na boca.
- Anda Billy, Me beija, Porra! Qual o teu problema.
- Foda-se! Não quero. Caralho.
- O problema foi que eu fiquei com o seu amigo? Me desculpa. Eu tava muito bêbada. Eu tinha apenas 17 anos. Agora não sou mais assim... Você deve pensar que sou uma puta, e deve me odiar por causa disso...
- Calma ai. Não te odeio. Não teve nada a ver esse papo. Tava nem ai se Você ficou com o Marcelo. Nem tínhamos nada sério. E idade não significa nada. Já fiquei com garotas de 15 anos bem mais sábias que as de 27.
- Você me desculpa?
- Pelo quê?
- Billy tu é um dos caras que sempre idealizei pra mim. Ainda gosto muito de ti daríamos muito certo...
- Não fale besteiras. Sou muito problemático pra entrar em seus sonhos. Quem sabe um dia, mas agora estou ficando com a Bell.
- Gosto de você e acho ela legal. Mas você e ela... Ela é legal, mas vocês não formam um belo casal...
- Não queremos ser vistos como um belo casal.
- Não importa. Nada vai mudar o que penso.
- Bem, vou ali com a Bell. Ela ta me chamando.

                Ela me deu um beijo no rosto e se foi. Abro a garrafinha e descubro que a bebida tinha acabado. Vou até Bell e ela me dá um beijo.
- Hey Garota, estava embaraçado com a Rose? Qual era o papo? –Ela me perguntou com um sorriso irônico.
- Nada. Só recebi uma bela declaração de amor que não fez o menor sentido. Vamos pra um lugar mais calmo. Esse evento ta chato.


                Levei ela pra um lugar mais calmo. Na verdade ela me levou. Fomos pra um bar não tão distante dali. Comprei algumas cervejas, ficamos rindo da vida antes de irmos pra casa dela.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Marina, Eu, Meu Pai e Todo o Resto

               

                Segui pela orla do Sta. Inês sentido centro, o vento do amazonas estava forte, mas não amenizava os primeiros vestígios de suor saindo de minha testa. A maré estava baixa e assim eu podia sentir o cheiro de merda e lixo que torna o rio mais lindo do mundo em uma piada para o povo tucuju.

                Poderia ter alguns jogadores de futelama à margem desse rio tão lindo, mas o que havia eram urubus comendo tripa de porco. Em um bairro cheio de matadouros clandestinos é normal se deparar com cenas como esta.

Pensei nos trabalhadores dos lixões, e seus problemas com álcool, e com a falta de comida, e o cheiro de seus lares e até mesmo nas dúzias de filhos que os ajudam os pais pra nas despesas do barraco. Eles também devem urubus, pois, devem saber que são protegidos por lei. Sendo os urubus protegidos por lei, a tendência é aumentar a população de aves tão odiadas, mas que contribuem pro meio ambiente ao contrario de nós.

Quando estava em frente ao teatro me deparo com Marina com uma tatuagem do Bike Mice From Mars em sua grossa coxa direita. Ela tem uma bela perna pra uma menina magra.
Ela odeia Nirvana. Diz que Nirvana foi a maior merda dos anos 90. A única coisa boa que o vocalista fez, foi ter se matado levando consigo milhares de fãs que também fizeram o mesmo quando souberam de sua morte. Não discordo tanto dela.

                Ela tinha um péssimo hábito de me chamar de cretino ou cachorro, e sempre me convida pra tomar café em uma cafeteria que tinha ali na alameda, eu, por minha vez sempre recuso o convite.
(...)
                - Com um cretino como você não gosta de café? –Me perguntou.
                - Bem, você tem o direito de não gosta de musicas, e eu tenho o direito de não gostar de café. – Respondi.
                - Tem chocolate. Aceita?
                - Não gosto de chocolate também. Obrigado mesmo assim.
                - Não gosta de café. Não gosta de chocolate. Não gosta de comer. Não gosta de dormir. Do quê tu gosta?
                - Beber, transar, ouvir musica e ficar deitado.
                - Bem tipinho escritores e poetas.
                - Não. Esse tipo de gente sabe como se defender.
                - E Você não sabe?
                - Não.

Um urubu pousa do outro lado da viela, e pensei: Urubus devem ser o cruzamento de pombo, galinha e rato. Evitei o comentário pra não dá motivos pra Marina me chamar de idiota.
Um senhor me olhou sério por cima dos óculos. Ele era cauvo, moreno, usava um bigode e tinha nariz de batata. Lembrei do meu pai. Será que tal sentimento é particular de todos de origem pisciana?

                Marina falava algo sobre a faculdade dela.
                - Tenho três trabalhos pra entregar...
                E eu pensava: “O que meu diria se me visse aqui? Talvez ele ficaria orgulhoso de saber que seu filho caçula não gay...
                -... Não agüento mais o meu professor de...
“... Acho que isso é saudade do meu pai. Tenho que ir visitá-lo. Também quero arrumar um emprego e quem sabe uma namorada depois...”
-... Acho que vou tomar outra xícara. Que um cigarro?
- Ah! Sim. To precisando de um mesmo. –aceitei.
- E como está indo o curso?
- Ah, ta legal. To aprendendo coisas sobre ergonomia e higiene no trabalho.
- Vamos embora? –ela me pergunta já pagando a conta.
- Pra onde? –pergunto.
- Tomar uma cerveja naquele quiosque da Veiga Cabral e depois ir pro curso.
- Pode crer. Vamos lá.

                Marina é tão linda, pena que não tem atitude na cama. Seu sorriso branco. Seus belos seios macios e arredondados. Seu ódio por musica. Seu amor por café, fotografia, livros, filmes, lugares calmos. Sua vontade de querer viver pra sempre em todos os lugares que ela já viajou. Os urubus, essa cidade, Kurt Cobain, moradores de lixão, eu, meu pai, o chocolate, o Rio Amazonas são apenas defeitos e qualidades que mostram que Deus sabe o que faz.


                Eu só queria transar aquele dia, mas acabei indo pro curso e ela foi pra um bar junto com seus amigos Hipsters e descolados. Ainda bem que Deus sabe o que faz. Hoje ela está grávida e eu não estou na lista dos supostos pais. Que bom. Não consigo me imaginar sendo pai daquela criança.